Criado em 1910, o icônico fortificante atravessou gerações, marcou infâncias e resistiu a duras mudanças regulatórias.

Biotônico Fontoura • Divulgação

Em 1910, um farmacêutico do interior paulista criou uma fórmula para combater a fraqueza da esposa. O que começou como um experimento artesanal em uma pequena botica transformou-se em um dos produtos mais reconhecidos da história farmacêutica brasileira. O Biotônico Fontoura atravessou mais de um século integrando o cotidiano de famílias em todo o país. A trajetória mescla elementos da cultura popular, práticas de saúde pública e estratégias pioneiras de marketing que ajudaram a moldar a indústria farmacêutica nacional.

Origem do Biotônico Fontoura e contexto histórico

Cândido Fontoura Silveira desenvolveu o fortificante com uma fórmula que incluía fosfatos, sais de ferro e vinho espanhol para ajudar a mulher, Elvira Siqueira de Castro, que tinha queixas constantes de fraqueza. Na época, a maioria dos medicamentos era preparada artesanalmente pelos boticários nas próprias farmácias ou pequenos laboratórios.

Os profissionais moíam ervas e minerais, destilavam plantas e preparavam unguentos para atender aos problemas mais comuns da população. Segundo Eder de Carvalho Pincinato, professor na Unicamp, esses produtos representavam a indústria farmacêutica daquele período

Eram quase como garrafadas e elixires derivados de plantas fitoterápicas. O fortificante começou a ser comercializado no estabelecimento de Fontoura em Bragança Paulista. Médicos da região passaram a prescrevê-lo aos seus pacientes, expandindo gradualmente sua aceitação.

A parceria com Monteiro Lobato e o nascimento da marca

Em 1916, Cândido Fontoura aproximou-se do escritor Monteiro Lobato. Ambos eram colaboradores do jornal O Estado de S. Paulo. Lobato queixou-se ao farmacêutico sobre cansaço e fadiga. Fontoura providenciou a ele o preparado, que ainda não tinha nome nem rótulo padronizado.

Fascinado com os resultados, o escritor tornou-se um divulgador entusiasta. A ideia do nome veio de Lobato: Biotônico, significando o tônico da vida, combinado com Fontoura, sobrenome pelo qual o farmacêutico era conhecido.

Na fase inicial, os frascos não eram padronizados e os rótulos eram desenhados à mão por um auxiliar da farmácia. Posteriormente, Cândido Fontoura levou o desenho original à Litografia Ipiranga, pioneira na impressão gráfica em cores na América do Sul.

Os rótulos verdes litografados, com tramas de floreios em estilo art nouveau, tornaram-se a identidade visual da marca por quase um século. A descrição funcionava como slogan: regenera o sangue, tonifica os músculos, fortalece os nervos.

Desnutrição e verminoses no Brasil do século XX

O produto surgiu em um contexto de desnutrição generalizada no país. A falta de infraestrutura sanitária básica tornava grande parte da população vítima de verminoses que causavam sintomas evidentes de fraqueza.

Monteiro Lobato publicou no jornal sua crença de que aproximadamente 70% dos brasileiros sofriam com amarelão, nome popular da ancilostomose. Trata-se de uma verminose intestinal causada por parasitas, contraída principalmente ao andar descalço em solos contaminados. A doença provoca anemia profunda e palidez.

O Biotônico Fontoura surgiu de uma necessidade real daquela época, conforme aponta Cíntia Oliveira, especialista em nutrição funcional. Cândido Fontoura desenvolveu também um vermicida, o Ankilostomina Fountoura. O combo funcionava da seguinte forma: o vermicida eliminava a infecção e o Biotônico, em seguida, restaurava o vigor e o apetite.

Jeca Tatuzinho e a estratégia publicitária revolucionária

O personagem Jeca Tatu foi concebido por Lobato em 1914 como um caipira preguiçoso. Originalmente, o escritor o definia como um funesto parasita da terra, um homem baldio inadaptável à civilização.

Ao mergulhar nas teses sanitaristas dos anos 1920, Lobato passou a interpretar a suposta preguiça como sinal de problemas de saúde. Passou a afirmar que o Jeca Tatu não é assim, ele está assim.

Em 1924, o escritor criou uma nova versão do personagem: Jeca Tatuzinho. Era um caipira que se tratava e ficava são, ensinando noções de higiene e saneamento às crianças.

Cândido Fontoura comprou os direitos do personagem, que se tornou garoto-propaganda do Biotônico. Na trama, Jeca Tatuzinho é diagnosticado com ancilostomose por um médico e se recupera com o tratamento.

Entre 1926 e 1973 foram publicadas 35 edições do folheto Jeca Tatuzinho, com tiragens médias de 1 milhão de exemplares. Segundo a comunicóloga Karine Karam, da ESPM, foi uma ação pioneira de branded content muito antes desse conceito existir. A publicidade deixou de apenas anunciar um produto e passou a contar uma história de transformação, criando vínculo emocional com o público.

O Almanaque Fontoura e a consolidação da marca

Outra estratégia certeira de marketing foi a criação do Almanaque do Biotônico Fontoura. A publicação tinha edições anuais e distribuição gratuita nas farmácias. O conteúdo incluía pequenos artigos educativos sobre saúde, curiosidades, horóscopo, calendário de pesca, histórias em quadrinhos e anedotas variadas. A publicação também foi idealizada por Monteiro Lobato e contava com o personagem Jeca Tatuzinho.

As tiragens eram gigantescas. No auge, em 1982, foram impressos 100 milhões de exemplares. Fernando Lebbe, autor do livro Full Marketing, observa que isso já representava uma estratégia moderna de marketing de conteúdo.

A distribuição nas farmácias divulgava a marca simultaneamente. Outras campanhas publicitárias marcantes incluíram o jingle criado em 1978, que virou fenômeno cultural. Figuras conhecidas como Pelé, Xuxa e a dupla Sandy & Júnior foram contratadas para publicidade do produto. Segundo Pincinato, a propaganda foi a peça fundamental para garantir o sucesso do Biotônico Fontoura.

Composição e controvérsias sobre eficácia

Durante a maior parte de sua história, o Biotônico Fontoura continha 9,5% de etanol em sua composição. Essa é aproximadamente a graduação alcoólica de um vinho espumante, o dobro de uma cerveja comum.

O produto nasceu como fortificante indicado para todas as idades, mas gradualmente reposicionou-se para o público infantil como suplemento nutricional. O médico José Roberto da Costa Pereira explica que o fato de depois ter sido direcionado às crianças, mesmo contendo álcool, ocorre porque, naquela época, não havia o entendimento atual.

Acreditava-se que em algumas situações isso era benéfico e estimulava o apetite das crianças. Do ponto de vista técnico, o farmacêutico Pincinato explica que o produto contém baixa dose de ferro elementar.

A concentração era de menos de 0,16 miligramas por mililitro, enquanto diretrizes atuais para tratamento de anemia ferropriva em crianças recomendam 3 a 6 miligramas por dia, podendo chegar até a 60 miligramas por dia. Rosane Gomez, da UFRGS, afirma que não há evidências científicas de eficácia como estimulador do apetite.

O único componente ativo com efeito comprovado é o sulfato ferroso, utilizado em casos de anemia ferropriva. A bióloga Ionara Rodrigues Siqueira ressalta que a dieta tradicional brasileira, feijão com arroz, disponibiliza níveis adequados de ferro e outros componentes essenciais para formação de hemácias e hemoglobina.

Receitas populares e sabedoria tradicional

O Biotônico integrou práticas familiares e populares além de sua função medicinal. Muitas pessoas recordam ter tomado na infância uma mistura de um frasco de Biotônico Fontoura, dois ovos de pata e uma lata de leite condensado.

A preparação era justificada como suplemento para ganhar peso. Segundo Karam, essas receitas revelam que o produto ultrapassou a condição de medicamento e integrou-se às tradições familiares.

O nutrólogo Pereira observa que do ponto de vista nutricional e medicamentoso, isso não faz muito sentido atualmente. Naquela época, porém, era comum depender de produtos fitoterápicos, tônicos e elixires.

Cíntia Oliveira comenta que popularmente havia lógica em juntar um fortificante para anemia ao leite condensado calórico e ovos como fonte de proteína. Mas alerta que o risco dessas receitas é grande, especialmente pela contaminação possível do ovo cru.

A detentora da marca vê essas receitas com carinho e respeito, reconhecendo que fazem parte de um patrimônio afetivo de gerações de famílias brasileiras. Ao mesmo tempo, ressalta que a recomendação de uso atual segue estritamente o rótulo e orientação de profissionais de saúde.

Mudança na fórmula e adaptação regulatória

Há 25 anos o governo federal brasileiro proibiu que tônicos, fortificantes e estimuladores de apetite contivessem álcool em sua fórmula. A medida obrigou o Biotônico Fontoura a alterar a composição.

O argumento da Anvisa era que expor crianças diariamente a uma dose de álcool poderia acarretar problemas de saúde e torná-las mais propensas a desenvolver alcoolismo na idade adulta.

Segundo Pincinato, o álcool funcionava como solvente farmacotécnico. Auxiliava na dissolução dos componentes pouco solúveis em água, na conservação do produto e na melhora da palatabilidade e estabilidade.

Pereira discorda parcialmente dessa interpretação. Segundo ele, quando administrado em colher pequena para crianças, o álcool provocava irritação gástrica inicial, gerando desconforto que se traduzia em vontade de comer, funcionando como aperitivo.

Com a mudança da fórmula, outros ingredientes foram ajustados. Passaram a incluir canela, mirra e babosa, que possuem ações cicatrizantes e estimulantes gástricas, contribuindo para aumento da secreção gástrica.

A Hypera Pharma esclarece que a retirada do álcool faz parte de atualizações para acompanhar avanços científicos e mudanças regulatórias. Em 2021, a fonte de ferro tradicional também foi alterada: em vez de sulfato ferroso, utiliza-se agora bisglicitano ferroso, que favorece a absorção no organismo. Desde 2017, além da versão original, há Biotônico Fontoura com sabor de uva ou morango.

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