Decisão do Conselho Estadual consagra tradição secular no estado que lidera a produção nacional e soma quase 3 mil produtos registrados e 630 alambiques registrados

A tradição, o saber fazer e a identidade da cachaça mineira ganharam uma chancela histórica. Os Modos de Fazer Cachaça de Alambique foram oficialmente reconhecidos como patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais. A aprovação foi concedida na última quinta-feira (22) pelo Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep), em reunião no Palácio da Liberdade, sede vinculada à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG).

A medida visa salvaguardar técnicas seculares de produção, ampliar a visibilidade dos produtores rurais e projetar a bebida nos mercados nacional e internacional. Para a secretária de Estado Adjunta de Cultura e Turismo, Josiane de Souza, o registro garante a preservação do conhecimento ancestral e abre portas para a formalização do setor: “o registro permite que esses saberes não se percam e cria oportunidades para a valorização de produtores, inclusive daqueles que ainda não estão cadastrados nos meios oficiais”, destacou a secretária.

Entre os produtores, a conquista é vista como uma mudança de paradigma. Sara Regina Santana Santos, cuja família fabrica a Cachaça Guaraciaba há 62 anos, ressaltou à Emater-MG, a valorização cultural para o campo e para as novas gerações:

“Esse reconhecimento do Iepha vai abranger muitas famílias que vivem da cachaça e mostrar o valor da bebida para os mais jovens. Antes, a cachaça era malvista e hoje as pessoas estão valorizando mais”, celebrou.

Hegemonia no campo e nos dados do setor

O reconhecimento imaterial reflete a dimensão econômica e social que a atividade possui no estado. Dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-MG) apontam que Minas lidera a produção nacional de cachaça de alambique, com um volume estimado de 13,5 milhões de litros por ano e 630 alambiques registrados.

Essa liderança absoluta é ratificada pelo Anuário da Cachaça 2026, divulgado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Segundo o levantamento, Minas Gerais concentra 36,7% de todas as indústrias e alambiques formais do Brasil. Em 2025, o estado impulsionou o setor nacional ao formalizar 63 novos estabelecimentos. o maior crescimento absoluto do país.

Na sequência do ranking nacional de estabelecimentos figuram São Paulo (230 produtores; 15,0%) e Rio Grande do Sul (106 produtores; 6,9%). Embora a Região Sul tenha apresentado a maior taxa percentual de expansão no último ano (+51,4%), o Sudeste mantém o domínio da cadeia produtiva, abrigando 62,5% de todos os estabelecimentos do país (961 unidades).

Capitais da cachaça e alta densidade no interior

No mapa econômico das regiões produtoras, o município de Salinas, no Norte de Minas, recuperou a liderança nacional com 27 estabelecimentos formalizados e um portfólio de 319 produtos oficiais.

Minas Gerais se destaca por abrigar 5 das 11 cidades brasileiras com 10 ou mais alambiques formalizados no MAPA:

A densidade populacional por engenho ilustra a penetração do setor na vida cotidiana das comunidades mineiras. Enquanto a média estadual é de um alambique para cada 37.806 habitantes (a maior do Brasil), cidades como Rio Espera e Lamim registram as marcas de um alambique para cada 322 e 328 residentes, respectivamente, ecossistemas que fomentam o turismo sensorial e o desenvolvimento regional.

No quesito diversificação, o estado encerrou o último período com 2.922 produtos registrados (34,9% do total nacional) e 4.043 marcas comerciais. Em média, cada alambique mineiro possui 7,2 marcas ativas, com linhas envelhecidas em madeiras nobres como Carvalho, Bálsamo, Jequitibá, Amburana e Ipê.

Consagração no Prêmio CNA Brasil Artesanal

A excelência técnica e sensorial que fundamentou a decisão do Conep reflete-se também nas principais premiações do país. No dia 15 de outubro, durante a cerimônia do Prêmio CNA Brasil Artesanal 2026, realizada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil em Brasília, os rótulos mineiros voltaram a se destacar.

A modalidade Cachaça de Alambique foi a mais concorrida do prêmio, reunindo 170 amostras inscritas do país inteiro. Minas Gerais emplacou 4 cachaças entre as 10 melhores marcas do Brasil (somando as categorias branca e amarela).

O grande destaque da premiação foi a Cachaça Durvalina, produzida em Igarapé (MG), que obteve o 1º lugar nacional na categoria Cachaça Branca, selando o momento histórico em que o saber fazer artesanal mineiro é reconhecido, simultaneamente, como referência em qualidade técnica e patrimônio imaterial da cultura brasileira.

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