Planalto vê resultado das eleições legislativas americanas como fator decisivo para destravar negociações comerciais e diplomáticas. Relação entre os dois países ainda sofre os efeitos do tarifaço imposto por Donald Trump.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aguarda o resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira (3), para avaliar os próximos passos da relação bilateral com o governo de Donald Trump.
A avaliação de interlocutores do Palácio do Planalto é que o resultado das urnas poderá indicar o espaço político que Trump terá para conduzir sua agenda e, consequentemente, influenciar os rumos das negociações com o Brasil.
As eleições americanas, conhecidas como midterms, vão renovar todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. Também haverá disputas para governador em 36 estados.
Atualmente, o Partido Republicano, de Trump, controla as duas Casas do Congresso. Uma eventual vitória dos democratas em uma ou nas duas instâncias pode dificultar a aprovação de projetos do presidente americano, além de ampliar o poder de fiscalização da oposição sobre a Casa Branca.
Até agora, integrantes do governo brasileiro avaliam que parte das negociações comerciais e diplomáticas com Washington deve continuar em compasso de espera até a definição do novo cenário político americano.
A expectativa é que a definição do Congresso americano ajude Brasília a entender o grau de liberdade política de Trump para avançar em sua agenda. Caso os democratas conquistem maioria em uma das Casas, o presidente poderá enfrentar mais obstáculos para aprovar propostas e conduzir decisões de política interna e externa.
O cenário também é acompanhado por diplomatas brasileiros porque a relação entre os dois países acumula divergências desde a imposição de tarifas sobre produtos nacionais pelo governo americano. As medidas comerciais foram justificadas por Washington com acusações de práticas comerciais consideradas desleais.
Em setembro, Lula afirmou que não pretendia aplicar imediatamente a Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos enquanto as negociações comerciais estivessem em andamento. Na ocasião, o presidente defendeu a continuidade do diálogo para evitar uma guerra tarifária.
Outro ponto de tensão envolve a representação diplomática dos dois países. A situação da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, foi afetada por restrições impostas pelos Estados Unidos. Em contrapartida, o governo brasileiro também adiou a aprovação do indicado por Trump para assumir a embaixada americana em Brasília.
A relação bilateral ganhou mais um elemento de desgaste após a reeleição de Lula. Trump questionou publicamente o resultado da eleição brasileira, afirmando que o processo teria parecido fraudado, sem apresentar provas. O governo brasileiro, por sua vez, busca evitar que as declarações provoquem uma nova crise diplomática.
Além das tarifas, estão em discussão temas como comércio, minerais críticos, terras raras e cooperação no combate ao crime organizado. Brasil e Estados Unidos chegaram a estabelecer um grupo de trabalho para discutir um possível acordo comercial mais amplo, mas as negociações ainda enfrentam obstáculos.
A avaliação no Planalto é que a definição do cenário político americano poderá abrir caminho para uma nova etapa de conversas. Até lá, o governo Lula deve manter uma postura de cautela diante de Washington, evitando medidas que possam ampliar o desgaste entre os dois países.


