Imaginemos quantas heroínas e heróis anônimos são responsáveis, em situações de tragédia, por escavar, resgatar, curar

No Brasil, o verão traz consigo a alegria e suas dores. É certo que vem o Carnaval. É certo que comparecemos diante de tragédias. Qualquer tentativa de teorizar o sofrimento seria cruel, no mínimo leviana. Os bons sofrem, morrem, são soterrados. Desafia até a fé quando acontecem situações de calamidade como as da Zona da Mata Mineira.
Deus, nestes momentos, por mais que pareça escondido, não se ausenta. Ele não habita nas respostas prontas “foi vontade de Deus!”, nem se encerra nas perguntas “por que Deus permitiu?”. O Deus bíblico nunca foi um argumento. É possível percebê-Lo no sacramento das lágrimas, do heroísmo, da solidariedade. Onde alguém se curva sobre o ferido, ali há epifania.
Sim, sacramento: “sinal”. O Deus de Israel, que não tem nome pronunciável, nem imagem, nem mesmo um Templo capaz de conter sua divindade, sempre esteve próximo dos desamparados. Ele vê, ouve, desce (Ex 3,7-9) para libertar. É Pai dos órfãos e protetor das viúvas (Sl 68,5). Os Salmos nos recordam que o Senhor está perto dos corações atribulados (Sl 34,19). E Jesus radicaliza: quando amparamos o necessitado, é a Ele que o fazemos (Mt 25). Não há mística autêntica que ignore o sofrimento concreto.
Nestes tempos difíceis, vemos mulheres e homens fortes. Imaginemos quantas heroínas e heróis anônimos são responsáveis, em situações de tragédia, por escavar, resgatar, curar… Bombeiros, policiais, enfermeiras, educadoras… Sua entrega e abnegação nos fazem recuperar a fé na humanidade — talvez porque, nelas, algo do próprio Deus se deixa entrever. A nobreza dos pequenos e dos grandes gestos, em momentos assim, desperta em nós o que há de melho
Ah, e a solidariedade… O Brasil não é só o país do jeitinho para levar vantagem em tudo. É também o país do jeito de fazer chegar, a quem precisa, na hora exata, o necessário para amenizar perdas e sofrimentos. Unimo-nos para odiar juntos, dividindo o país entre “Lulanaro”, esquerda-direita. Mas há também um senso de unidade quando vemos nossos irmãos feridos. A dor, paradoxalmente, revela aquilo que a ideologia esconde. E, falando em “acordos políticos”, algo salta aos olhos: o oportunismo de certas figuras públicas nestes tempos. Emenda para cá, discussão sobre valores para lá, ligações e sobrevoos acolá…
Nada de novo. A política sempre flertou com o sofismo. A democracia, desde os gregos, convive com o poder do melhor discurso. O desafio agora é que as redes sociais amplificam a cena e reduzem o discernimento. O espetáculo substitui a substância. O marketing político tornou-se mais perverso, mais cínico. Corre-se o risco de nos convencermos ao ver um vídeo bem editado, com foco cuidadosamente controlado, de alguém que costuma andar apenas em carro oficial, aparecer banhado de chuva, com a enxada na mão. A imagem produz comoção; nem sempre produz verdade.
Tragédias despertam heroísmo. Despertam solidariedade. Mas exigem também consciência. Muitas delas são, em parte, fruto de omissões históricas e da má gestão pública. Se nas tragédias floresce o melhor do humano, floresce também nelas o oportunismo dos canalhas…


