Nos hospitais e no Samu de Belo Horizonte, enfermeiros transformam o acolhimento em ferramenta para garantir a continuidade do tratamento de pessoas em situação de rua

Corredores da Santa Casa em Belo Horizonte. • Luisa Marques/Itatiaia.

Entre os corredores do setor de pneumologia da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, a enfermeira Fernanda Passos, de 35 anos, percorre os leitos dos pacientes internados. Há dez anos no Sistema Único de Saúde (SUS), ela sabe que, a qualquer momento, pode receber alguém que chega ao hospital sem acompanhante e sem uma rede de apoio para dar continuidade ao tratamento. Em um desses plantões, Fernanda atendeu um paciente encaminhado de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Em situação de rua e dependente químico, ele apresentava sintomas respiratórios e recusava que qualquer familiar fosse comunicado.

O protocolo era o de sempre: acionar o Serviço Social para buscar o histórico daquele paciente, identificar de onde ele havia sido encaminhado, descobrir se havia familiares e iniciar o tratamento. Mas, antes de qualquer evolução clínica, havia um desafio considerado essencial pela equipe de enfermagem: conquistar a confiança daquele paciente.

“A gente respeita o paciente mesmo, passa orientações. Alguns acabam sendo um pouco mais difíceis, porque podem ter algum problema psiquiátrico. Aí a gente começa criando um vínculo, uma amizade com esse paciente, para conseguir ter a confiança dele. A partir do momento em que eu tenho a confiança daquele paciente, eu consigo ter um trabalho mais harmônico”, relatou.

Os atendimentos da Santa Casa relacionados ao público em situação de rua são, na maioria das vezes, encaminhados das UPAs, Centros de Saúde e do Consultório na Rua, a fim de dar continuidade ao tratamento. Fernanda conta que a maioria desses pacientes tem quadros respiratórios ou ligados ao consumo excessivo de álcool.

O grande desafio, no entanto, começa depois da estabilização clínica. Muitos desses pacientes voltam às ruas, não dão continuidade aos tratamentos e acabam retornando aos hospitais. Nos casos em que o paciente não deseja permanecer internado, ele pode assinar um Termo Circunstanciado de Alta, no qual declara que não quer receber atendimento naquele momento.

Para a enfermeira, a criação de vínculos é uma das principais ferramentas para reduzir essa ruptura no cuidado. “A gente até fala que não somos fofoqueiras, fazemos anamnese (risos). Então, a gente acaba vendo tudo da vida do paciente ali; de alguma forma, a gente acaba acolhendo o paciente como um todo. Eu acolho o paciente na parte psicológica, na parte da doença, na parte nutricional. Então, o cuidado todo do paciente é comigo”, diz.

Para a enfermeira, a criação de vínculos é uma das principais ferramentas para reduzir essa ruptura no cuidado. “A gente até fala que não somos fofoqueiras, fazemos anamnese (risos). Então, a gente acaba vendo tudo da vida do paciente ali; de alguma forma, a gente acaba acolhendo o paciente como um todo. Eu acolho o paciente na parte psicológica, na parte da doença, na parte nutricional. Então, o cuidado todo do paciente é comigo”, diz.

Esse vínculo, muitas vezes, vai além da assistência prestada durante a internação. “A gente cria um certo vínculo, uma amizade com eles e, muitas vezes, a gente acaba adotando esse paciente. Então, a gente compra roupa, arruma doação. Aqui no hospital, a gente tem o serviço da Avosc (Associação das Voluntárias da Santa Casa). Eles fazem doações, capturam doações. Quando o paciente precisa de produtos de higiene, roupas, entre outros, eles acabam fazendo a doação e, a gente, adotando o paciente”, disse.

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